Você tem se deixado por último?
Sobre a arte silenciosa de se apagar para preservar o outro.
Você diz que está tudo bem, mas não está.
Engole o incômodo, deixa o sono pra mais tarde, o choro pra depois, a fome pra amanhã.
Finge que esqueceu — mas foi você quem ficou esquecida.
É um adiamento tão discreto que nem chega a ser decidido. O copo d'água que você não levanta para pegar. A consulta que remarca há oito meses. O almoço em pé, entre uma tarefa e outra. Nada disso, isoladamente, é grave. É a soma que faz o estrago — e a soma acontece devagar, sem que nenhum dia em particular pareça o dia em que você se abandonou.
Uma dor que não encontrou palavra
Esse movimento de deixar-se por último não começa hoje.
Já dizia Freud, em Luto e Melancolia, que há dores que, quando não podem ser simbolizadas, voltam como perda de si.
No luto, sabemos o que perdemos e a dor tem endereço. Na melancolia, não: a perda não se deixa nomear, e então volta para dentro. O que deveria ter sido dito sobre alguém — ou a alguém — passa a ser cobrado de si mesma. A crítica que ficou sem destinatário acaba encontrando um: você.
Na tentativa de preservar o outro — um amor, um ideal, uma imagem — é você quem vai ficando menos.
Há quem sustente a paz de uma casa inteira com o próprio silêncio, e ainda assim se pergunte por que anda tão cansada.
Ser desejada ao preço de si
Lacan, por sua vez, falava que o sujeito nasce na falta, estruturado pela linguagem do Outro.
Antes mesmo de falarmos, já falaram de nós. Havia um nome escolhido, uma expectativa, um lugar reservado numa história que começou antes da nossa chegada. Nascemos dentro do desejo de alguém. Isso não é defeito — é a condição de qualquer um. A questão é o que se faz com essa herança depois.
Muitas vezes, aprendemos cedo que ser desejada implica renunciar a quem somos — calar o desejo, adaptar o gesto, conter o afeto.
E aí você se torna especialista em atender, mas estrangeira no próprio corpo. Disfarça de força o cansaço, e chama de "normal" o que silenciosamente adoece.
A palavra "normal", aqui, faz um trabalho pesado. Ela transforma sintoma em rotina. É "normal" acordar cansada. É "normal" não ter vontade de nada. É "normal" não lembrar da última vez que quis algo só para si. E, de tanto ser normal, deixa de ser motivo para perguntar.
Não é sobre se colocar em primeiro lugar
Vale dizer o que este texto não está propondo. Não é um chamado para inverter a fila e passar você para a frente. Cuidar é legítimo, e se dedicar a alguém pode ser uma das coisas mais vivas que existem.
A questão é outra: quando o cuidado com o outro é o único jeito que você encontrou de ter algum lugar, ele deixa de ser doação e vira condição de existência. E o preço disso é alto — porque não sobra nenhuma versão sua que não esteja a serviço de alguém.
Mas a psicanálise não propõe caminhos prontos. Ela propõe escuta.
Escutar esse ponto onde você vem se apagando — e fazer disso um começo, não um fim.
Não é um processo rápido, e ninguém pode garantir onde ele vai dar. Mas há uma diferença decisiva entre se apagar sem saber e poder falar sobre isso com alguém que escute a sério. A partir daí, o que era destino volta a ser história — e história é algo que ainda pode ser contado de outro jeito.
Você tem se deixado por último?