A psicanálise está ultrapassada?
Talvez ela permaneça justamente porque nunca quis ser jovem.
É comum escutar que a psicanálise envelheceu. Talvez porque ela nunca quis ser jovem.
Desde Freud, ela caminha na contramão dos discursos de adaptação, eficiência e felicidade.
Ela não cura dores — ela as escuta. Não corrige desvios — sustenta o enigma.
É uma prática sem atalho, num tempo que só quer atalho. Não entrega em oito sessões, não vem com gráfico de evolução, não promete um antes e depois. Num mercado que exige resultado mensurável, isso soa como defeito. Talvez seja exatamente o contrário.
O que insiste não obedece ao relógio
A psicanálise permanece porque fala do que insiste: a falta que nos habita, a repetição que nos atravessa, o mal-estar que nenhuma técnica é capaz de domesticar.
Freud escreveu O mal-estar na civilização em 1930 e disse algo que continua incômodo: uma parcela de sofrimento não é falha do indivíduo nem defeito de época — é o preço de viver entre outros, de ter linguagem, de ter corpo, de saber que se morre. Nenhum avanço técnico revogou isso. Mudamos a superfície do mal-estar; a estrutura permanece.
"Onde estava o id, deve advir o ego" — dizia Freud. Mas não como uma conquista heroica. Antes, como uma travessia — feita de tropeços, perdas e recomeços. Sem garantias. Sem promessas.
Não é a substituição do caos pela ordem. É a possibilidade de que, ali onde algo em você agia sem que você soubesse, você possa comparecer. Comparecer não é dominar. É poder responder por aquilo que o atravessa.
Enquanto houver palavra
O inconsciente — dizia Lacan — é estruturado como uma linguagem. E enquanto houver palavra, haverá lapsos, sintomas, sonhos.
Haverá, portanto, psicanálise.
É um argumento simples e difícil de contornar: enquanto seres humanos falarem, falarão mais do que pretendiam. A palavra escapa. Diz o que não estava no plano. Nenhuma tecnologia eliminou o ato falho, o sonho estranho, a frase que sai errada e acerta em cheio.
Ela não se torna obsoleta porque não pretende resolver o humano.
Oferece-se como escuta do que em nós resiste à ordem, ao ideal, à pressa de existir.
Uma inversão da pergunta
Talvez não seja a psicanálise que esteja ultrapassada.
Talvez seja o desejo de calar o inconsciente que esteja cada vez mais ruidoso.
Talvez o ultrapassado seja o apelo à felicidade total.
A recusa em escutar a falta.
A ânsia por silenciar o que nos faz humanos.
Vivemos cercados de convites a otimizar o humor, medir o sono, produzir bem-estar. Nada disso é ruim em si. O problema começa quando a tristeza vira erro de sistema — algo a ser corrigido antes de ser compreendido. Aí não sobra espaço para a pergunta mais simples: tristeza de quê?
A psicanálise não responde ao mercado. Ela responde àquilo que, mesmo reprimido, insiste em retornar: o que em nós escapa.
E é nesse escape que continuamos a nos reinventar.
A aposta do analista
O analista aposta na existência de um sujeito do inconsciente; aposta que, mesmo no sofrimento, há um sujeito desejante, capaz de se responsabilizar pelo que o atravessa — não no sentido de se tornar "melhor" ou "eficiente", mas de sustentar seu desejo, sua falta, sua travessia.
Aposta é a palavra exata. Não há garantia prévia de que aquele sujeito vai aparecer. Escuta-se antes de saber, sustenta-se um lugar antes que haja prova de que valerá a pena. É por isso que se chama aposta — e não técnica.
Não é uma aposta no que o paciente irá conquistar ("curar-se", "resolver-se"),
mas na possibilidade de que encontre seu próprio modo de lidar com seu inconsciente.
Próprio é a palavra que importa aqui. Não o modo correto, nem o modo recomendado — o dele. Um jeito de viver com o que não se resolve, que não seja emprestado de ninguém.
Créditos
Texto: Jane de Sousa.
A publicação original nas redes acompanhava uma imagem de Salvador Dalí.