Nem toda vontade é desejo
Sobre escolhas que parecem livres e obedecem a histórias antigas.
Às vezes achamos que estamos decidindo com liberdade, quando na verdade estamos obedecendo a histórias antigas. Desejos que não nasceram em nós, mas que fomos herdando — como quem carrega uma mala sem saber o que tem dentro.
A mala vem fechada. Vem com o sobrenome, com a profissão que se espera, com o tipo de pessoa que se deve amar, com a definição do que conta como uma vida bem-sucedida. Ninguém entregou isso num envelope, com instruções. Foi absorvido — pelo que se dizia à mesa, pelo que era motivo de orgulho, pelo que ninguém comentava.
O eco que soa como voz própria
A psicanálise nos ensina que nem sempre o que chamamos de vontade é nosso desejo. Muitas vezes, é um eco. Um movimento que se repete, silenciosamente, vindo de um lugar que a gente nem sempre sabe nomear.
A pista costuma ser o sabor da conquista. Você chega onde queria e sente um vazio esquisito, quase constrangedor — porque era para ser alegria e não é. Não porque a conquista tenha sido pequena, mas porque o desejo realizado ali não era exatamente seu. Cumpriu-se uma expectativa. E expectativa cumprida alivia, mas não realiza.
Freud dizia que "o eu não é senhor em sua própria casa". E Lacan nos lembra que "o desejo do homem é o desejo do Outro".
São duas frases duras, e é bom não amaciá-las. A primeira retira do eu o comando que ele julgava ter: você é habitado por processos que não conhece e que decidem antes de você. A segunda é ainda mais radical: aquilo que você quer foi, em boa parte, aprendido no querer de alguém. Não existe desejo inaugural, nascido do nada. Existe desejo que passou pelo outro — e que pode, num certo trabalho, ser reconhecido como próprio.
Não se trata de descobrir um desejo puro, guardado em algum lugar intacto. Trata-se de saber de quem é a voz que você vem obedecendo.
Quando o caminho sempre dá no mesmo lugar
Talvez por isso tantas escolhas pareçam pesar. Talvez por isso certos caminhos pareçam sempre se repetir.
A repetição tem um traço que a denuncia: o roteiro se mantém mesmo quando os personagens mudam. Outro emprego, mesma sensação de estar sendo explorada. Outra relação, mesmo desfecho. Outra cidade, mesmo desconforto na terceira semana. A cada vez, a explicação parece razoável e circunstancial. É a série que revela que ali não há acaso.
Freud chamou isso de compulsão à repetição, e observou algo contraintuitivo: repetimos inclusive o que nos faz mal. Não por gosto pelo sofrimento, mas porque o que não pôde ser lembrado e falado precisa ser encenado. Repete-se o que não teve como ser narrado.
O que insiste também fala
Mas o que se repete também fala. E quando escutamos com seriedade o que insiste em retornar, algo novo pode nascer.
Escutar com seriedade quer dizer parar de tratar a repetição como azar. Quer dizer perguntar: o que essa cena vem tentando resolver? De quando ela é? Quem estava lá na primeira vez?
Nem sempre a resposta aparece — e quando aparece, raramente é a esperada. Mas o simples fato de a pergunta existir já muda alguma coisa. Uma cena que pode ser pensada perde parte da força com que se impunha.
Não como resposta pronta. Mas como possibilidade.
Referências
Freud, S. O eu e o id (1923).
Lacan, J. Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.