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Tem silêncios que não são paz

Sobre o que emudecemos para permanecer — e as outras formas que o sujeito encontra de existir.

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Jane de Sousa
Psicóloga Psicanalista · CRP 05/60368 · 8 de abril de 2026 · 5 min

Tem silêncios que não são paz, são sobrevivência.

Muitos aprendem cedo que falar demais assusta, que mostrar o que sentem pode afastar, que querer demais é inconveniente.

Não é preciso uma cena grave para que essa lição se instale. Basta a repetição miúda: a pergunta que ficou sem resposta, o choro que incomodou, a alegria que foi recebida com um "não faz escândalo". Uma criança não conclui que o mundo é hostil. Conclui, muito antes, que ela é demais para ele. E ajusta o tamanho.

Então vão se moldando: diminuem o tom, adiam perguntas, fingem que está tudo bem.

O que se cala encontra outra porta

Mas o sujeito não desaparece porque foi calado. Ele encontra outras formas de existir: num mal-estar que não passa, numa tristeza que não se explica, em escolhas que parecem acontecer sem que ele esteja lá.

É comum que a pessoa chegue à análise dizendo justamente isso — que sua vida vem acontecendo à revelia. Que assinou compromissos que não lembra de ter escolhido. Que está numa relação, numa profissão, numa cidade, e não consegue localizar o momento em que decidiu. Não há um culpado à vista. Há apenas a sensação incômoda de assistir de fora à própria biografia.

O que não encontra palavra encontra outro caminho — e o corpo costuma ser o primeiro a ceder passagem.

Freud percebeu isso escutando mulheres que ninguém escutava. O sofrimento delas não tinha lesão que o justificasse, e por isso era tratado como invenção. Ele fez o contrário do que se fazia: parou de procurar a causa no corpo e passou a escutar o que aquele corpo estava dizendo. Foi essa inversão — escutar em vez de classificar — que abriu a psicanálise.

A escuta não é um método de correção

A psicanálise não oferece soluções prontas, mas convida o sujeito a escutar o que já está falando — no corpo, nos sonhos, nos lapsos, na repetição.

Repare que não é preciso ir buscar longe. O material já está aí, circulando: a palavra trocada sem querer, o sonho que insiste em voltar, o esquecimento seletivo, a mesma briga com pessoas diferentes. A análise não inventa esse material. Ela apenas cria um lugar onde ele possa, enfim, ser dito em voz alta e escutado sem pressa.

E há uma diferença grande entre desabafar e falar em análise. No desabafo, você conta o que já sabe. Na análise, você escuta o que estava dizendo sem saber. É o momento em que a própria frase surpreende quem a disse — e algo, ali, se desloca.

O "jeito de ser" também tem história

Porque às vezes, o que chamamos de "jeito de ser" é só a forma que alguém aprendeu a habitar o mundo sem se perder dos outros. Mesmo que, nesse processo, acabe se perdendo de si.

"Eu sou assim mesmo" costuma ser uma frase de encerramento — serve para fechar o assunto. Mas nenhum jeito de ser nasceu pronto. Ele foi construído, teve função, protegeu alguém de alguma coisa. Quando essa história pode ser contada, o que parecia natureza volta a ser escolha. Não necessariamente uma escolha fácil, nem imediata. Mas uma escolha possível — que antes nem se apresentava como tal.

Não se trata de passar a falar tudo, o tempo todo, para qualquer um. Não é sobre desmontar a discrição de ninguém. É sobre a diferença entre o silêncio que você escolhe e o silêncio que se impôs a você antes que houvesse escolha.

E você? O que emudeceu em nome de permanecer?

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